Ze Nando: “Atlético dos Arcos é um clube especial”

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O médio defensivo do Atlético dos Arcos, Zé Nando, cresceu numa família de futebol e cumpriu a tradição de ter um percurso ligado a esta modalidade. Fez parte de uma equipa sensação de juniores do Neves FC, clube que o fez campeão sénior ainda em idade júnior, na mítica finalíssima contra o clube de Arcos de Valdevez, cujas cores actualmente defende e pelas quais também já foi campeão. Foi treinado pelo tio Zé Rego e o pai Fernando Rego é o seu actual treinador. Aos 28 anos, o atleta natural de Mujães, em Viana do Castelo, orgulha-se do seu trajecto e ainda quer continuar ter o gosto de jogar futebol “mais sete ou oito anos”.

A família Rego respira futebol por todos os poros e, apesar de alguma resistência inicial, o inevitável acabou mesmo por acontecer na vida de Zé Nando. “Recordo que no início não fui para o futebol, andei na natação porque a minha mãe não queria que apanhasse frio e chuva no futebol. Com oito ou nove anos, é que disse que queria ir para o futebol e tive o aval de todos”, notou, lembrando onde deu os primeiros toques na bola durante a formação. “Entrei para o Barroselas e o primeiro treinador foi o Pedro Baía, que tinha como adjunto o Miguel Kitos. Passado um ou dois anos, fiz parte da primeira equipa de formação do Artur Rego, que é sempre especial porque é o nome do meu avô. O grande problema era o local de treinos, começamos em Durrães, passamos por Alvarães e acabamos em S. Romão do Neiva”, recordou.

A dificuldade em ter campo próprio terminou com a aventura no Artur Rego, mas antes disso acontecer os pequenos craques deixaram a sua marca com o título de campeões de Iniciados. “As equipas de formação eram feitas segundo as nossas idades, não havia muitos miúdos e a minha geração era os meus primos e mais alguns amigos. Fomos campeões de Iniciados, mas como éramos de segundo ano não disputamos o Nacional. Ainda fizemos mais uma época pelo Artur Rego nos Juvenis, mas depois acabou. Na época seguinte fomos seis ou sete para o Barroselas que ia disputar o Nacional de Juvenis”, registou.

Depois veio um período de grande sucesso no clube da sua terra. “Fui para os juniores do Neves, treinado pelo tio José Rego, e a equipa sénior era treinada pelo meu pai, Fernando Rego. Fomos campeões no primeiro ano, num campeonato disputado com o Barroselas e Limianos, até ao fim”, lembrou, salientando também o êxito na época seguinte. “Fomos jogar o Nacional de juniores, mas eu, o meu primo Gil e o Crespo também fomos chamados à equipa principal do Neves. Mais ou menos a meio da época, eu e o Crespo ficamos apenas nessa equipa sénior, que era treinada pelo meu tio Zé Rego e que foi à finalíssima com o Atlético dos Arcos e sagrou-se campeã distrital. Fiz mais de 20 jogos nos seniores nesse ano”, realçou.

Zé Nando iniciou a temporada seguinte no Neves, mas a meio saiu para o Limianos. “Era o meu primeiro ano de sénior, logo no Campeonato de Portugal e pela equipa da minha terra, cujo campo fica a três minutos de distância da minha casa. O treinador era o meu pai e a equipa era a base da anterior. Estávamos a fazer um boa época até dezembro, depois houve problemas financeiros, o treinador foi embora e entrou nova direção e novo treinador, o Rogério Amorim. Fizeram muitas mudanças no plantel e acabei por sair para o Limianos, juntamente com o meu primo Gil”, contou.

Quando foi para o Limianos, o treinador era o Carlos Cunha, mas o destino colocou novamente o pai como seu treinador. “Passadas poucas semanas, o Carlos Cunha saiu para o Vilaverdense e quem o substituiu foi o Fernando Rego”, recordou Zé Nando, que, na época seguinte, continuou ao serviço da equipa de Ponte de Lima.

O próximo passo foi no Atlético dos Arcos. “Tinham acabado de subir de Divisão com o Leandro Morais, mas quem ficou como treinador nessa época do Campeonato de Portugal foi Fernando Rego. No início dessa temporada, até estava a fazer testes no Paços de Ferreira B, com o Flávio Dantas e o Kiko. Os dois ficaram e o Paços também queria que ficasse, mas optei por vir por ser uma boa oportunidade de continuar a jogar no Campeonato de Portugal. Arrisco a dizer que essa foi a minha melhor época de Campeonato de Portugal, estava num nível muito bom”, considera.

Fruto dessa boa temporada, Zé Nando deu o salto para o Espinho, treinado por Rui Quinta. “O Espinho em termos de grandeza da sua massa adepta foi o melhor clube onde joguei. No entanto, as condições nessa época não eram boas, estavam a fazer um estádio novo e andávamos com a casa às costas. Foram as piores condições que encontrei, mas como clube e o apoio dos adeptos nos jogos foi o melhor, sem dúvidas”, vincou, afirmando que, individualmente, foi uma aprendizagem importante. “Ficamos em primeiro lugar no Campeonato de Portugal série B e fomos discutir a subida à II Liga, mas fomos eliminados pelo Casa Pia. Pessoalmente, a época até começou bem, fiz os primeiros cinco ou seis jogos a titular, mas depois tive uma pequena lesão e joguei pouco. No entanto, tenho de reconhecer que os meus colegas de posição eram muito bons, um era o Léo Cordeiro, atual capitão do Estrela da Amadora, e o outro era o Adriano Abreu, que, nos últimos anos, esteve no Lourosa. Foi um ano de enorme crescimento em muitos aspetos”, reconheceu.

Seguiu-se o Merelinense, também do Campeonato de Portugal, onde o seu primo Rui Rego era o guarda-redes. “Não foi uma época em que fiz muitos jogos, mas gostei muito do clube”, notou.

O Vianense também entrou na lista dos clubes de Zé Nando, através do treinador Miguel Mota. “Anteriormente já tinham existido convites, mas era para jogar no distrital, primeiro pelo José Pequeno e depois o Miguel Mota. Para o Campeonato de Portugal, esta foi a primeira proposta concreta. Fizemos uma época muito boa, com muita gente da terra, e individualmente também foi muito boa. Entretanto, veio a SAD e houve uma “limpeza” no plantel, não falaram nada comigo. Esse foi o único aspeto negativo. No meu caso, apesar de ser de Viana, só tinha um ano de Vianense, mas fizeram isso com jogadores com muitos anos de casa. Contudo, esta situação não apaga o prazer que tive em representar o Vianense”, manifestou.

Após alguma indefinição, Zé Nando aceitou o convite do Macedo de Cavaleiros, onde conseguiu conjugar o futebol com o estágio da licenciatura em desporto. “Gostei muito de estar lá, as pessoas são muito simpáticas e fui muito bem tratado. O presidente do Macedo foi sempre impecável comigo. Já o disse várias vezes, se o Macedo fosse mais perto de casa teria continuado por lá. Para se ter noção do que estou a dizer, na altura tinha 27 anos e era um dos mais velhos do plantel, o treinador nomeou-me como um dos três capitães de equipa, pela minha forma de ser, de falar e de estar no grupo. Durante a época, o capitão saiu, o sub-capitão era o guarda-redes e, como o treinador não gostava muito de ter um guarda-redes como capitão, acabei por assumir a braçadeira. Ter a braçadeira num clube após três meses foi algo que me deixou orgulhoso”, assumiu.

Após sete temporadas nas provas nacionais, o médio tomou a difícil decisão de ir para a distrital. Mas a decisão mais difícil foi escolher entre o Atlético dos Arcos e o Távora. “Tinha a ideia de começar a trabalhar por aqui e jogar num clube perto. Os responsáveis do Atlético, desde que saí, falavam comigo todos os anos para regressar e era o que tinha mais lógica naquele momento. Reuni com o presidente Pedro Teixeira e o Jordão para vir para o Atlético, mas o meu pai assinou pelo Távora e o presidente, António Maria, ligava-me todos os dias para ir para o Távora. Recusei sempre e estava mesmo inclinado para o Atlético, mas foi das poucas vezes que o meu pai me pediu para ir com ele e a única que apelou ao coração”, confessou. “O meu pai não é uma pessoa de demonstrar muito amor e carinho, mas nessa conversa comigo vieram as lágrimas aos olhos. Disse que tinha a certeza de que o projeto do Távora era bom e que era a primeira vez que estava a pedir a minha ajuda no futebol. Tive de ligar ao Pedro Teixeira, Jordão e ao capitão Hélder Feijó para dizer não a um clube que gosto muito, mas eles compreenderam o meu motivo”, revelou Zé Nando, que acabou por ficar surpreendido com o Távora. “Tinha boas condições, tudo muito simples, mas não faltava nada. Nessa equipa estava o Ivan, o Higuita e o Croas, depois vieram alguns juniores do Vilaverdense com qualidade. O plantel foi praticamente todo renovado e havia, de facto, muita qualidade, aliado à vontade de aprender. Fizemos a melhor época da história do Távora, um quarto lugar, e não ficamos mais acima porque os miúdos estavam ainda no primeiro ano de sénior e faltava alguma experiência. Foi uma época que adorei a todos os níveis”, admitiu.

O regresso ao Atlético dos Arcos e o título de campeão tiveram um “sabor especial”. “Quando viemos para o Atlético dos Arcos, os comentários eram que a equipa ia ser o Távora B, para ficar a meio da tabela. A verdade é que o treinador fez muitas mudanças no grupo, trouxe muitos miúdos, em quem poucos acreditavam, e conseguimos o título com inteira justiça. Na primeira volta, em casa, tivemos só vitórias e nenhum golo sofrido. Foi uma época memorável”, exprimiu, fazendo um pequeno balanço da presente época e do orgulho de estar no clube arcuense. “Tivemos uma má fase, depois do jogo com o Brito, que deixou muitas marcas. Agora estamos numa fase melhor e acredito muito na manutenção. Todos os jogos são finais. O Atlético é um clube especial, já tinha gostado da última passagem, mas agora ser promovido a ser um dos capitães, jogar com regularidade e alcançar o título de campeão na época passada tornou este clube ainda mais especial”, adiantou.

Zé Nando garante que ter o pai como treinador já é uma “situação normal”, que o obriga a ser cada vez melhor. “Lidar com o pai treinador no grupo é fácil, o pessoal faz as suas piadas, diz o mister tem mais do que um filho na equipa e coisas assim, mas isso são as brincadeiras normais. Quando fui para o Távora, ouvia algumas bocas da bancada a dizer que só jogava por ser filho do treinador, mas com o tempo isso acabou e perceberam que esse não era o motivo. Claro que existe sempre essa responsabilidade de mostrar para fora que, se jogo, não é por ser filho do treinador, mas também faço isso porque já sou assim quero dar sempre mais de mim. Sei como é o mister e para ele joga quem merece, não interessa se é novo ou velho, se tem estatuto ou não. O mister é o meu pai, mas estou com ele porque gosto das suas qualidades enquanto treinador”, esclareceu o jogador que teve dois momentos em que achou que podia ser jogador profissional. “O primeiro foi na época do Neves, em que começaram a surgir empresários interessados. Depois no Atlético do Arcos, quando fiz uma excelente temporada e fui para o Espinho. Pelo contrário, deixei de ter esse sonho, quando saí do Macedo de Cavaleiros para o Távora”, registou.

Zé Nando espera jogar até aos 35 ou 36 anos e de preferência quer terminar o seu percurso num dos clubes que já representou. “O clube onde gostava de acabar era o Artur Rego, mas já não existe, embora o meu tio fale em voltar daqui a uns anos. O Neves neste momento não tem seniores, por isso faz sentido no Atlético ou num dos clubes que já representei”, notou o jogador, elegendo como melhores momentos da carreira os títulos de campeão pelo Neves e Atlético dos Arcos. “Dizia ao meu pai que ia ser campeão pela primeira vez junto comigo e isso aconteceu na época passada. Ser campeão no Neves também foi um título especial por ser o clube da minha terra”, afirmou. No Espinho, diz que encontrou a equipa com “mais qualidade”. Sobre os melhores jogadores com quem jogou, destaca Crespo, que era “muito acima da média”, o Léo Cordeiro e Gabriel Branco, lateral do Atlético dos Arcos. Mesmo reconhecendo que é “suspeito”, considerou o pai Fernando Rego como o melhor treinador e a seguir Rui Quinta. Na categoria de melhor presidente elogiou o líder do Macedo Cavaleiros, mas “o melhor de todos” foi o José Carlos Caçador do Atlético dos Arcos, considerando-o “uma pessoa excepcional”.